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Em circunstâncias normais restruturar uma empresa é um desafio enorme, no entanto se a isto adicionarmos o sector da aviação como variável e então estivermos a falar de restruturar uma companhia aérea o desafio ganha outra dimensão. Atualmente o mercado da aviação é altamente especializado, com indicadores únicos e com uma volatilidade e imprevisibilidade digna de um qualquer filme de Hollywood, daqueles que nos mantêm colados ao ecrã do início ao fim, negando todas e quaisquer necessidades e impulsos fisiológicos, sem nunca saber o que esperar. A diferença é que desta vez nós fazemos parte do elenco, e podemos ser as vítimas ou os heróis. Isso ainda está por decidir.

Apesar de reconhecer que são cada vez mais os instrumentos de gestão que recorrem á inteligência artificial, e não só, como mecanismo de apoio à decisão que reduzem a imprevisibilidade dos cenários futuros, em circunstâncias normais estes mecanismos funcionam até muito bem, conseguindo prever entre outros aspetos a procura. Acontece que ainda não falamos na infame variável chamada pandemia. Ora sucede que com a pandemia todos os mecanismos, softwares e outros instrumentos de apoio á decisão que as companhias usam deixaram de ser capazes de qualquer análise ou previsão, uma vez que estamos perante algo que nunca aconteceu desde que recorremos a esses mesmos mecanismos.

Resumindo, restruturar, aviação e pandemia é a conjugação de termos perfeitos para que tenhamos uma “pequena” caixa de pandora a diferentes níveis, económico, social e até mesmo nacional.  Dito isto vamos agora chamar os bois pelos nomes se nos permitem a expressão. A restruturação da TAP AIR Portugal começou da pior maneira possível, com a tutela a recorrer à famosa consultora BCG – Boston Consulting Group. Porquê? Questionam-se os mais distraídos. Em 2016 a pedido do Sr. Neelman a consultora elaborou um estudo muito criticado, com o mote “transformar a TAP numa companhia aérea mais eficiente” em que propunha segundo o expresso “uma poupança entre 50 e 70 milhões de euros” que seria “alcançado na categoria dos pilotos e tripulantes, com a renegociação de acordos de empresa e o ajustamento do número de assistentes de bordo ao mínimo exigido por voo”. A somar a isto a mesma fonte cita que para além dos cortes com o pessoal “a segunda maior poupança proposta pela consultora, num valor entre os 40 e os 65 milhões de euros, resultaria de cortes nos serviços aos passageiros – como por exemplo no ‘catering’ (refeições a bordo) – e poupanças na área comercial, com a renegociação de taxas e incremento das vendas diretas”. Entre outras medidas que revelavam um claro desconhecimento não só do funcionamento do sector da aviação, mas também da operação da companhia aérea. A somar isto verificou-se um insultuoso desconhecimento ou talvez negligência da identidade e cultura organizacional da companhia.

Ainda assim começou a restruturação, e muito se ouviu que todas as partes interessadas seriam envolvidas neste processo, contudo a realidade não foi bem assim. Os sindicatos que o digam.

Parece-nos prudente questionar o que está a ser feito, não só porque tememos os cortes cegos, de uma consultora que no passado manifestou um claro desconhecimento de aviação, em áreas fundamentais para a manutenção da capacidade instalada que nos permitirá voltar a crescer na retoma. Estamo-nos a referir à redução excessiva da frota, de trabalhadores e de Tripulantes de Cabine em particular. Concordamos que esta pode ser uma oportunidade para aprendermos com os erros do passado e para de facto otimizar processos e sermos mais eficientes e eficazes de modo a assegurar a sustentabilidade financeira da companhia.

Bem, mas mudemos de registo. No passado dia 09 deste mês tivemos um noticia fabulosa! A de que está em fase final de testes uma vacina com uma eficácia de 90%, que deverá ser submetida para avaliação por partes das entidades reguladoras no final do mês de novembro. Isto poderá implicar uma retoma mais cedo que o esperado, mas convenhamos que se depauperarmos a nossa capacidade instalada isso poderá querer dizer que não estaremos em condições de capitalizar de uma retoma que se avizinha mais cedo que o esperado. Mas ainda assim não tenhamos ilusões até porque entre o momento em que a vacina é aprovada pelas entidades competentes, a sua produção em massa e respetiva distribuição ainda vão alguns meses.

De acordo com dados da IATA -International Air Tranport Association é expectável que a dimensão de uma operação para distribuir a vacina de uma só dose, o que não é o caso, será enorme. Esta entidade de referência na aviação afirma que o “fornecimento de uma vacina de uma única dose a 7,8 biliões de pessoas iria encher 8000 Boeings 747 de carga.” A IATA deixa ainda o alerta para “mesmo que metade das vacinas sejam transportadas por meios terrestres o sector da aviação iria enfrentar o maior desafio de sempre na distribuição da outra metade.”

Assim que a vacina for disponibilizada, e é previsível que isso aconteça até ao final do primeiro trimestre de 2021, será possível que a retoma da procura tenha um crescimento exponencial e imediato? Estamos em crer que sim. Se o Covid-19 veio criar um marco histórico na nossa indústria, o seu fim trará também um momento único, e é aqui que surge o otimismo e a esperança para o transporte aéreo, um dos sectores mais afetados pela pandemia.

Em resposta ao argumento de que a TAP estava atrasada na sua restruturação surge agora um outro, o de que afinal os responsáveis da TAP podem estar perante uma oportunidade única face a toda a concorrência, que na sua maioria já fez muitos cortes, e já tomou muitas decisões cruciais. Será que os consultores e decisores vão ter em conta que se aproxima uma retoma, alavancada na ciência que nos proporcionou uma vacina, mais cedo que o esperado? Os riscos serão sempre uma variável desta equação, mas também queremos acreditar que existirá visão nas decisões.

Acreditamos que a TAP do futuro pode constituir-se como exemplo para um país cheio de potencial por concretizar, mostrando do que somos capazes, ajudando a alavancar ainda mais a na nossa economia.

Dito isto resta-nos por fim questionar, que TAP queremos? A TAP pode de facto evoluir e melhorar e acredito que não existirá ninguém mais interessado que isso aconteça que não os próprios Colaboradores independente do departamento a que estejam afetos. A TAP é um dos maiores “players” da aviação em Portugal. Segundo dados da IATA – a aviação em Portugal representa cerca de 6,6% do nosso PIB e emprega 321 000 pessoas. Por ser indissociável importa também referir que de acordo com o “Turismo de Portugal”, o turismo em Portugal, empregava em 2019, cerca de 336,8 mil pessoas. Portanto o turismo e a aviação em Portugal empregavam em 2019 um total de 657.8 mil pessoas. Ainda de acordo com esta entidade o turismo “é a maior atividade económica exportadora do país, sendo, em 2019, responsável por 52,3% das exportações de serviços e por 19,7% das exportações totais. As receitas turísticas registaram um contributo de 8,7% para o PIB nacional.”.

Portanto ficam aqui vários apelos:

  • para que tenhamos visão na forma como vamos fazer a restruturação da TAP de modo a não comprometer o seu crescimento e o crescimento da TAP Cargo (distribuição da vacina), a e rápida adaptação às solicitações do mercado;
  • para de facto envolvermos todas as partes interessadas, não só no plano teórico, mas no plano pratico e operacional, ouvindo os especialistas;
  • e para que os dados que irão fundamentar as medidas que farão parte da restruturação sejam abertamente discutidos entre todos os envolvidos.

Fontes:

                 

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