Mensagem do Coordenador da Área de Psicologia da APTCA
A importância do autocuidado
A importância da saúde mental é, nos dias de hoje, indiscutível. Embora exista maior reconhecimento do tema e mais pessoas procurem ajuda profissional, essa iniciativa ainda é insuficiente face aos crescentes desafios que se fazem sentir.
Saúde Mental no contexto da aviação
Ser Tripulante de Cabine significa estar na linha de frente do atendimento ao público, assumindo a responsabilidade pela segurança e bem-estar dos passageiros. Por trás da postura profissional, do uniforme impecável, do sorriso acolhedor de quem recebe “de braços abertos”, existem seres humanos sujeitos a pressões e riscos frequentemente incompreendidos fora do contexto da aviação.
A saúde mental dos Tripulantes não deve ser tratada como um pormenor, mas como parte essencial da vida pessoal e profissional. Em cada voo, além da bagagem de Tripulante, muitos carregam angústias, saudades e preocupações. A distância daqueles que mais gostariam de ter por perto, pode tornar situações desafiadoras ainda mais difíceis. Por vezes são os colegas que ajudam a mitigar essas angústias; outras, nem por isso: restando apenas o silêncio e a vontade de regressar rapidamente a casa.
Os colegas, aliás, desempenham um papel fundamental. Quando percebem que algo não está bem com um dos seus pares, podem aproveitar essa “janela de oportunidade” para se aproximar. Muitas vezes isso é tudo o que aquele colega precisa: alguém que se disponibilize a estar lá para ele.
Um mundo acelerado e uma desumanização do ritmo
Vivemos num mundo líquido, em que tudo acontece à velocidade de um scroll, — para cima e para baixo e no qual a sensação de que “parar é perder tempo” vem agravar a desconexão humana. Abrandar, no entanto, não é uma perda, mas sim um investimento no capital humano que estamos a deixar fugir. Cada vez que tentamos contrariar a nossa natureza estamos a sobrecarregar o nosso corpo e mente, como se de peças soltas se tratassem. Essa desumanização transforma-nos em seres desconectados, sem raízes, sem chão, aéreos. É preciso reaprender a olhar para nós e para quem está ao nosso lado, com tempo e atenção. Pequenos gestos de contacto podem fazer a diferença, nem que seja para dizer, “eu vejo-te, eu ouço-te”, são momentos de presença. Quase sempre encontraremos alguém que tem vindo a precisar de ajuda — ainda que silenciosamente.
A solidão na profissão
A solidão está muito mais presente na aviação do que se possa julgar. Esta é vivida por Tripulantes no ativo e também terá sido por quem já saiu da profissão. Embora o glamour de outros tempos atenuasse esse sentimento — até porque permitia um maior tempo de convívio; foi-se perdendo gradualmente com o apressar dos nossos dias.
Por vezes, quase como um paradoxo,— como é possível sentir-se só, quando se está rodeado de tanta gente? E é precisamente por isso, por se estar a viver tudo “tão” e “tanto”, que não se permite acolher todas as emoções que nos ajudam a autorregular e muitas vezes viver em demasia a tal solidão. Cada vez mais, perante a quantidade de informação que chega a todo o tempo e a toda a hora, não há tempo para abrandar, parar e processar tanta informação, fazendo com que frequentemente haja uma avalanche de emoções (à posteriori) ou um embotamento emocional. A saúde mental atravessa todas as fases da vida profissional: quem está a voar, quem abraçou novos projetos, quem está reformado e quem procura reencontrar um novo sentido para a vida. É preciso olhar para ela com o cuidado que se impõe e normaliza-lo, sem tabus.
Mitos que impedem a procura de ajuda
Apesar dos avanços, ainda existe resistência em procurar acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Tal como ir ao ginásio é natural e inquestionável, cuidar da saúde mental deveria ser igualmente normalizado. Ir ao ginásio pode estar relacionado com a obtenção de um objetivo em específico, manutenção e/ou prevenção. O mesmo se deveria passar com a saúde mental, porém, vários mitos dificultam essa prática:
1. “Não preciso de ajuda, consigo sozinho.”
Baseado na crença de que apenas os “fracos” pedem ajuda. Este mito empurra as pessoas para ciclos de sofrimento, angústia e até depressão. Com apoio, o peso seria menor. Sozinho, torna-se muitas vezes incapacitante porque se entra numa espiral de pensamentos intrusivos e ruminantes;
2. “Vão achar que sou “fraco” ou um “fracasso”.
O medo de manchar a própria imagem leva muitos a fingir que “está tudo bem” e, muitas vezes, até o oposto: mostrar um bem-estar exagerado, quase encomendado, especialmente nas redes sociais, “never been better”;
3. “Se procurar ajuda, vou ficar sinalizado nos ficheiros médicos.”
Um receio muito presente nos profissionais no ativo. No entanto, os médicos estão vinculados à ética e ao sigilo e o objetivo é ajudar — nunca prejudicar, sendo parte da solução e não do problema;
4. “Se precisar de medicação é porque estou muito mal e nunca mais vou largá-la.”
Outro equívoco. A medicação, quando necessária, é definida por profissionais capacitados com fármacos seguros, eficazes e com menos efeitos secundários. O acompanhamento médico evita recaídas e orienta o desmame adequado para que a recuperação seja bem sucedida;
5. “Um amigo toma “tal medicamento” e sente-se melhor. Vou fazer igual.”
A automedicação é perigosa. O que funciona para um, pode ser prejudicial para outro. Só um profissional pode avaliar o contexto clínico e indicar o tratamento adequado para cada um. Não se trata de “one size fits all.”
Um convite à presença e ao cuidado
Nesta época festiva desejo que aproveitem o tempo junto de quem vos é mais querido. Num mundo líquido e tão veloz, tentem abrandar, olhar para vocês, para quem está à vossa volta e marcar aquele café tantas vezes adiado. Sabemos que não é por mal, mas acabamos por normalizar o “não haver tempo para nada”. Somos seres de afetos — mesmo aqueles que dizem o contrário.
A vida é um sopro; não há necessidade de apressá-la ainda mais.
Abrandemos para que nos reencontremos e que 2026 seja o ano de pormos os cafés em dia.
Cuidem-se e cuidem de quem está à vossa volta!
Em meu nome e em nome da Área de Psicologia da APTCA (APA), estamos aqui por vocês e para vocês.
Boas festas,
Sérgio Silva Marques
(Coordenador da APA)
Consiste numa equipa de Tripulantes de Cabine voluntários com competências e valências na área da Psicologia que está atento às ocorrências que se passam tanto no setor da aviação como na classe dos Tripulantes de Cabine, e estabelecem contactos individualmente com reformados, ou outros Associados que necessitem de apoio.
Esta equipa é pró ativa e toma a iniciativa de contactar os colegas em situações críticas e de stress que possam advir do âmbito profissional ou pessoal.
Colabora também no desenvolvimento de projetos e iniciativas de apoio psicossocial, prestando apoio em estudos e inquéritos. Da mesma forma, solicita suporte ou relata uma eventual situação que pode exigir assistência especializada.
Consiste numa equipa de Tripulantes de Cabine voluntários com competências e valências nas áreas de Psicologia e/ou Coaching que está atento às ocorrências que se passam tanto no setor da aviação como na classe dos Tripulantes de Cabine, e estabelecem contactos individualmente com reformados, ou outros Associados que necessitem de apoio.
Esta equipa é pró ativa e toma a iniciativa de contactar os colegas em situações críticas e de stress que possam advir do âmbito profissional ou pessoal.
Colabora também no desenvolvimento de projetos e iniciativas de apoio psicossocial, prestando apoio em estudos e inquéritos. Da mesma forma, solicita suporte ou relata uma eventual situação que pode exigir assistência especializada.
A Área de Psicologia da APTCA é coordenada pelo Sérgio Silva, associado da Aptca e ex Tripulante de Cabine da TAP Air Portugal, e conta com o voluntariado de um grupo de Tripulantes de Cabine com qualificações na área de psicologia e/ou coaching.
Uma das suas funções é tomar a iniciativa de abordar os Tripulantes quando surgem indicações/informações de que um dado Tripulante de Cabine está com um problema ou numa fase crítica de vida (ex: morte dum filho, doença grave, acidente de viação, isolamento social, stress, etc.)
Serve este relatório para fazer um resumo das atividades desenvolvidas durante três anos (2020-2023), bem como a intervenção da APA, problemas apresentados e o número de tripulantes que beneficiaram da sua existência.
Email: coordenador.psicologia.aptca@gmail.com
Telefone: 218 452 020
Telemóveis: 938 466 745 / 939 572 023